Como dizer que acabou?
Tenho tentado não pensar nisso, mas é uma tristeza patente, isso é inegável. Acho que tudo piorou nas últimas semanas, até seu olhar, que sempre se manteve tão firme, altivo, que sempre procurou o meu, não é mais o mesmo. São olhos caídos, quase melancólicos. Mas não é só isso. Se ela tivesse orelhas grandes, digo, se suas orelhas fossem órgãos realmente robustos, graúdos por assim dizer, certamente já teriam despencado ao lado do cabelo. Estariam estiradas deflagrando o que seu sorriso de canto de boca tenta escamotear. As orelhas, diferentemente das mãos, dos olhos e até do nariz, principalmente do nariz, não mentem. Acho que foi um professor do cursinho que me disse isso. Talvez numa aula de biologia. Talvez numa mesa de bar depois da quinta saideira.
Ela não disse nada. Na verdade, acho que estamos, mutuamente, tentando evitar o assunto. Conseguimos. Na maior parte do tempo temos dado conta de cumprir os rituais de forma quase litúrgica. Mas cada vez que chego perto dela, que cruzo a porta sem nem um olho inchado sequer, sem qualquer rastro de noites mal dormidas, sinais de desespero ou euforia, quando entro de maneira leve, ostentando alguma coisa que até poderia ser chamada de felicidade, é inevitável notar sua frustração. Seu quase desânimo. Ela responde sempre aos meus cumprimentos, é verdade. Nem faria diferente, uma mulher como ela não seria capaz disso. Mas eu sei que as coisas não andam bem.
São quase dez anos e nem consigo dizer que o tempo passou rápido demais, porque, apesar de termos tido nossos momentos, com algum grau de graça aqui ou ali, no geral foi sempre mais difícil do que bom. Ela sabe disso e eu também, mas acho que acabamos nos acostumando a isso. Conhecido é bom, às vezes eu penso. Conhecido é terrível, eu sei.
Nos momentos mais doloridos pra ela, nos dias mais difíceis, quando já entro compartilhando reflexões e reconhecendo minhas responsabilidades, afirmando peremptoriamente o quanto estou diretamente implicada com determinada situação, com determinado comportamento, sem culpar o outro, a gente sabe que o outro não importa, chego a dizer, nesses dias ela até se desconcentra. Mais de uma vez a peguei olhando pra caixinha de lenços, abandonada ao lado da poltrona, há quanto tempo você não mexe aí?, eu penso nela me perguntando, nem uma lágrima?, somos nós, lembra?, mas ela não diz nada e quando percebe que acompanhei seu olhar, disfarça puxando um assunto qualquer, tentando me distrair do que ambas sabemos: está tudo indo por água abaixo.
A vejo procurando as palavras, tentando perscrutar formas de chegar até mim como antes. Logo ela, que nunca nem foi de falar, anda dizendo coisas sobre o meu jeito, apontando como as coisas estão diferentes, me explica, eu peço, mas ela invariavelmente devolve com outra pergunta e eu finjo que não percebi, finjo que não percebo o que está na iminência de acontecer.
Na última semana, talvez na mais difícil de todas até aqui - digo isso porque não tenho esperanças de que as coisas fiquem mais fáceis, de que o tempo alivie tudo que está por vir -, mas na última semana, num deslize absoluto, sem nem pensar no que estava fazendo, ela me aplaudiu. Juntou as mãos de forma compassada, não tão alto, mas nem um pouco baixo também, em três movimentos repetitivos, três batidas sequenciais que qualquer leigo identificaria como palmas. Você me aplaudiu, eu pensei, olhando pras suas mãozinhas. Mãos tão delicadas. Talvez pela falta de hábito de se chocarem. De serem quase que incapazes de manifestar esse som tão festivo, tão familiar. Mãos que quase sempre repousam sobre suas pernas, tocam seu queixo, mas que naquele dia me aplaudiram.
Talvez até ali, até o dia das palmas eu pensasse que a gente ainda teria como reverter aquilo. Que os sinais pudessem estar truncados, confusos. Uma fase ruim, por que não? Mas naquele momento tive certeza de que estávamos nos despedindo e cheguei a entender um pouco da sua dor, cheguei a pensar como deveria estar sendo difícil pra ela me dizer o que sabíamos necessário, quase urgente, mas que ela vinha adiando com requintes de crueldade, tentando me deixar cascas de banana, às vezes na porta, antes de eu sair, outras vezes logo que eu chegava, antes mesmo de perguntar como ela estava.
Ontem ela quis saber sobre a minha ansiedade. Uma última cartada?, cheguei a pensar. Como anda a sua ansiedade?, me fala dela, vai, e sem graça emudeci, abaixei a cabeça, um silêncio lancinante, como eu vou dizer que acabou?, não sei, eu respondi. Pensei em mexer nos lenços de papel, em colocar a caixinha no colo, cheguei a olhar para eles. Ela acompanhou meu olhar. Vi seu peito inflar um pouco dentro da blusa, uma quase sensação de deslumbramento completamente ceifada pela sentença que veio na sequência: estou bem, eu acho.
Não é você, sou eu, pode ser um caminho. Mas penso na agressividade que será não culpabilizá-la nem no momento final. Uma punhalada derradeira. Uma falta que preciso lidar, entende?, eu poderia dizer, mas não sem ter de me ocupar com suas orelhas, não visíveis, não fisicamente derrubadas, mas falidas, entregues, como sei que estão há semanas, há alguns meses, talvez. Cada dia um exercício novo, uma conjectura que me faz imaginar nós duas ali, uma de frente pra outra, eu mais absorta nos meus pensamentos do que de fato prestando atenção na nossa conversa. Tentando pensar nas palavras certas, em como encaixar tudo de modo claro, sem comprometer nossa transferência, foi ela, afinal, que nos trouxe até aqui, Lacan não perdoaria suas palmas, mas como dizer pra minha analista, quase uma década depois, acho que eu sei o que você tá precisando me dizer, eu entendo que esteja sem coragem, vamos ficar por aqui, é isso? alta, você quer me dar alta?
APAGAR PARA TODOS.


Excelente 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼