Destino
Começou na Praça da República, doutor. Acho que foi ali que percebi, disse já mirando a porta e vislumbrando uma vida sedada e feliz. Mas ele insistia em perguntas que a gente sabia - tanto eu quanto ele - que nem o fariam mais rico e nem a mim mais funcional. Você já tinha sentido isso antes, ele perguntou enquanto olhava para a tela do computador e eu digitava no celular é só clicar no ícone da impressora, pai.
Frequento médicos de convênio por reparação histórica que passa pelos índios que dizimamos e chega a milhões de pessoas que não conseguem fazer exames de sangue pelo sistema público de saúde. O privilégio de ter uma carteirinha me submete a uma culpa constante e à relação de doutores conveniados que compraram vaga na faculdade. E a verdade é que só estava naquele consultório porque precisava ir ao cartório assinar meu divórcio, mas sentia muito medo de morrer.
Crise de pânico? Você acha que é crise de pânico, me perguntou a moça na recepção minutos antes segurando uma prancheta de madeira que abraçava um A4 cheio de perguntas e contradições.
Inspira e respira, inspira e respira. Não sei, Darlene. O doutor ainda demora a me receber? Inspira e respira, inspira e respira.
E a sua avó? Ela já teve algum sintoma de ansiedade?
Qual, Darlene? Avó por parte de pai ou por parte de mãe? Tem água? Pode fumar aqui?
A Darlene sabe que, embora chamem aquilo de consultório, ele é só um drive thru de sedativos e ela é a moça que organiza a fila e tenta evitar que alguém morda a própria orelha ali na recepção. Fico pensando que o mínimo que se espera de um local que atende gente ansiosa e desorganizada emocionalmente é cumprir horários, mas eles não cumprem.
Enquanto espero, tento perfilar os pacientes em pensamento pela gravidade dos diagnósticos. A moça de rosa tem preguiça. Está aqui para pegar um atestado e ganhar uns dias assistindo às séries que gosta. Ela sorri o tempo todo olhando para o celular, deve estar apaixonada e pessoas assim costumam cometer atentados apenas contra si mesmas.
Mas aquele ali de casaco listrado ao lado dela pode entrar atirando no cinema a qualquer momento. Darlene deveria dar prioridade máxima. Só eu noto a quantidade de vezes que ele pisca?
O senhor da esquerda está aqui porque quer largar o cigarro. Tem um pigarro incessante e passa o tempo todo procurando alguma coisa no bolsinho da frente da camiseta polo. Colocaria ele depois de mim e antes da mulher de rosa. A quantidade de pulos que o meu joelho dá deveria ser um alerta se aqui fosse um lugar sério. A sola do meu tênis está gasta de tanto que o pé insiste em movimentos repetitivos de sobe e desce.
Darlene também não me parece bem. Tem sobre a mesa dois potinhos, um com linhaça e outro com chia, ao lado de uma coalhada disfarçada de iogurte. Não adianta, seo Rubens, precisa trazer os exames impressos. Aqui não é papelaria, ela diz para um homem do outro lado do telefone. Sem rir.
Seguro um livro para evitar conversas e contato visual, mas noto que ela me observa sobre os óculos. Levanta e passa do meu lado carregando uma ficha. Darlene tem a parte de cima do corpo dividida em três camadas, como se estivesse amarrada por cordas: seios, barriga e um avental capaz de carregar dois filhotes de canguru.
Silvana. Silvana. Da porta do médico, ela grita meu nome. Que erro. Aquele moço vai matar todo mundo enquanto pego uma receita de fluoxetina.
Então, doutor. Vou resumir: eu sempre soube que vou morrer de pomba.
Não entendi. Me explique, melhor, por favor. Pomba?, ele disse tirando pela primeira vez os olhos da tela do computador e do filme pornô que devia estar assistindo.
É, os ataques sempre foram frequentes e acho que as pessoas se acostumaram com a presença dessas pragas e subestimam sua vocação de cometer massacres.
São bichos perigosos, as pombas. E me espanta ter que explicar isso para uma pessoa que passou pelo menos nove anos estudando para sentar do outro lado desta mesa e prescrever drogas que darão algum sentido à minha vida.
Não estou falando especialmente das fêmeas, doutor. Isso não faz nenhuma diferença, até porque nunca consegui identificar se os ataques partiram dos pombos ou das pombas, mas o risco é o mesmo. Elas se aproximam de mim em lugares completamente improváveis, como se em todo canto desta cidade ou de qualquer outra em que eu esteja existisse uma quantidade absurda deles. Cheguei a pesquisar sobre um eventual boom populacional desses bichos, mas não achei nada a respeito, o que não significa que não tenha ocorrido, porque podem estar escondendo isso da gente, entende?
A pergunta era retórica, até porque não estava ali para debater essa pandemia ainda encoberta. Só queria mesmo sua letra indecifrável e o carimbo com CRM. Mas já se iam mais de trinta minutos.
É conveniente que as pessoas não conheçam a real ameaça que esses bichos representam, doutor, até porque eles estão espalhados pelas ruas, ao lado de crianças e bebês nos parques, sendo alimentados por senhoras inocentes e velhos tarados. Estão nas fotos e viraram atração em vários pontos turísticos. Lembro de uma vez, chegando a Buenos Aires, em que o moço do táxi me disse animado que eu tinha que visitar a Plaza de Mayo para fazer fotos com os pombos, são muchos, muchos, ele disse, és muy rico. Quase saltei com o carro em movimento, doutor.
Fico pensando que mexer com esses bichos poderia afetar até o turismo das grandes capitais mundiais. Tem fotógrafos que ganham a vida assim. Não sei se por sadismo ou aperto financeiro, mas ficam ali nas praças só para clicar turistas com pombas. E as pessoas pagam por isso. Em dólar, sabe?
Trazer isso a público poderia gerar um caos sem precedentes. Imagina a abertura do Jornal Nacional boa noite, um grupo de cientistas americanos divulgou uma nota nesta segunda-feira identificando os pombos como os maiores predadores da humanidade, atrás apenas dos dinossauros e dos políticos. Eu dou risada, doutor, porque seria engraçado, mas o assunto é sério.
E você já foi ferida nesses ataques, ele me perguntou evidentemente desconfiando da minha saúde mental, o que não faz nenhum sentido, já que apenas alguém com problemas de saúde mental estaria sentado ali.
Doutor, foram muitas situações, mas graças às aulas de pilates e de uma certa destreza que carrego comigo, nunca chegaram a me machucar. Mas como sei que vou morrer de pombo, não posso vacilar. Às vezes, saber como vamos deixar esse mundo pode ser reconfortante, é o que pensam as pessoas que desconhecem as causas de seus últimos suspiros, mas no meu caso é angustiante demais e sinto que isso tem abreviado meus dias.
Voltei há duas semanas de uma viagem a Portugal e, é claro que eu não sabia por que se soubesse não teria ido para lá, mas é o país das pombas. Desviava delas até dentro das lojas. Em uma pastelaria, que lá, doutor, não é um lugar cheio de travessas de óleos e japoneses, mas uma espécie de padaria, sabe?, tinha um pombo no caixa e achei que estivesse em período de experiência tamanha a naturalidade da moça ao lado dele, que não fez nada para espantá-lo e só me perguntou se era cartão ou dinheiro.
Eu sei que tem gente que acha que esses bichos representam a paz, mas a minha eles roubam. Menos de doze horas em Lisboa e um pombo tentou me matar com um rasante na mesa em que eu comia, mirando minha jugular, mas consegui desviar, salvando minha vida por centímetros. Centímetros, doutor.
Cheguei a consultar o seguro saúde que tinha feito para viagem e não havia nada na cobertura que falasse sobre ataques de aves, muitos menos de pombos, que são uma subcategoria.
A segunda investida aconteceu dois dias depois. Um bicho desses tentou invadir nosso quarto. Já estava com a metade do corpo pra dentro quando arremessei aos berros um pé de meia nela. Meu marido acordou assustado e disse que não suportava mais. Eu disse que eu também não, que a gente precisava tomar providências sérias, porque ia acabar morrendo ali, com sepultamento em euro. Mas ele insistiu que o problema não era o pombo, mas eu e que se não procurasse ajuda médica ele não teria como continuar com aquilo, mas ele falava e eu só conseguia caçar pelo chão do quarto qualquer vestígio que indicasse que havia mais deles por ali, porque a gente sabe, esses bichos não andam só.
Nem preciso dizer, né doutor, como foi o restante da viagem, num país em que encontrei mais pombas que portugueses. E ainda teve o ataque na entrada de uma tasca tradicional e eu estava totalmente desprevenida, abraçada com o Carlos, o meu marido se chama Carlos, e vi que a pomba vinha em direção à nuca dele e me joguei com ele no chão, derrubando uma mesa e atingindo o fêmur de uma senhora, o que salvou sua vida, não a da senhora, doutor, mas acabou com a noite.
Hoje vamos assinar o divórcio e eu tô mais abalada que o normal.
Tome a água, tome. Imagino que a separação esteja mexendo com você. É normal estar mais ansiosa.
A separação está resolvida, doutor, o problema é que o cartório fica numa praça lá no centro da cidade que tem mais pombos do que gente e eu tentei adiar, mas ele acha que quero ganhar tempo para reatar o casamento e eu só preciso achar um cartório que permita uma separação sem assassinos voadores.
Uma vez cheguei a ficar mais de doze horas trancada no banheiro de casa, porque tinha uma pomba na janela da cozinha. Assim que ela me viu, rodou o corpinho para o lado direito e voou em direção ao meu coração, mirando a válvula mitral, mas eu corri pro banheiro e me tranquei até o Carlos voltar do trabalho. Fiz ele revistar a casa mais de oito vezes, mas ele garantiu que não tinha pombo nenhum ali. Esses bichos são ardilosos. Não os maridos, doutor, os pombos. O Carlos é um homem bom, mas cansou, entende?
No começo, ele tentava tratar com naturalidade. Chegou até a brincar com a situação. Um dia chegou em casa cantando pombinha branca, o que tá fazendo?, mas eu fui logo falando duro com ele, que isso não era coisa de se dizer e depois disso ele até tirou o espírito santo que ficava na cabeceira da nossa cama.
Mas nada resolve, doutor.
Foi nessa hora que ouvimos os tiros. Eu, primeiro, depois o médico. Em pé, ao lado da impressora, ele se virou depois do segundo ou terceiro quando eu já gritava, estão atirando, estão atirando. Me joguei no tapete e me arrastei para debaixo da mesa.
Ele correu em direção à porta deixando voar a receita que me permitiria recomeçar a vida com novo status civil. Foram mais de treze tiros, disso eu tenho certeza.
Com a porta entreaberta, ele ficou ali assistindo a pelo menos meia dúzia de disparos. Depois, o barulho cessou e só se ouvia alguém aspirando o catarro do nariz aos prantos.
Conforme ele ia abrindo a porta, eu tentava me desvencilhar das cadeiras que tinha colocado como barreira e só em pé consegui ver o desastre em que a recepção havia se transformado. Corpos uns sobre os outros, gente ainda viva, ufa, gemidos de todos os lados. Sentada no canto, com as duas mãos sobre o rosto, estava Darlene. Não tinha fala nem cor.
A mulher de rosa ainda estava ali em pé, com o revólver apontado para baixo. Eu disse que era urgente, eu disse que era urgente, ela repetia com um olhar perdido, enquanto o médico tentava se aproximar - pé ante pé - pedindo para ela se acalmar e dizendo que ia ficar tudo bem.
Demorou mais de uma hora para a chegada da polícia e das ambulâncias. Ninguém podia sair dali. Cena de filme, eu escrevi pro Carlos, mas ele achou que eu estava exagerando. Logo a mulher de rosa, quem poderia imaginar, né?, falei para uma Darlene que seguia em estado de catatonismo absoluto.
O senhor de camiseta polo fumava enquanto recebia os primeiros socorros e o moço que piscava rápido ajudava os demais, porque além de enfermeiro tinha curso de intensivista e passagens pelo Afeganistão.
Dois corpos estavam cobertos. Ouvi o policial dizer que uma era representante da indústria farmacêutica e o outro um pobre diabo entregador de comida. Logo pensei em Darlene tentando furar a dieta.
Viu doutor?, eu disse caminhando em direção ao médico que tinha o jaleco todo manchado de sangue. Lembra que falei sobre como esses bichos são perigosos e traiçoeiros? Foi tudo por causa das pombas. Eles morreram de pomba.
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