Interfone
Você está vivendo sua vida, organicamente, como uma muda de samambaia que cresce sem alarde, se desenrolando a partir da incidência dos raios solares que escapam da persiana, em terças e quartas-feiras despretensiosas, um desabrochar preguiçoso, mas perene, até que um dia o interfone do seu apartamento toca e você, que poderia estar fazendo um treino de cardio ou servindo colheradas de sopas a velhinhos desacompanhados em um asilo na periferia da cidade, atende.
Do outro lado, uma voz nem tão grave nem tão aguda informa que o homem do 71, o senhor do 71, quer falar com você, na verdade ele precisa, o porteiro se corrige informando que ele precisa falar com você, porque parece - e sempre que alguém usa o termo parece, pode reparar, é porque ele tem certeza da informação, mas como a notícia é ruim a pessoa prefere amenizar dizendo parece que bateram no seu carro, mesmo sabendo que o carro está amassado na esquina, e foi mais ou menos assim que o porteiro me disse naquele dia, parece que ele, o homem do 71, vai começar uma obra na semana que vem e precisa falar com você. Claro, eu respondi, pode passar meu celular e aí no momento em que eu poderia estar em uma gôndola de supermercado procurando farinha de trigo para o bolo de cenoura que eu prepararia mais tarde ou numa aula de kumon para adultos eu estava em casa, com o interfone na orelha dizendo pode passar meu celular para ele e quando esse tipo de coisa acontece, quando a gente profere determinadas frases, um portal se abre, sugando tudo de bom que existe e devolvendo labaredas de fogo ou canos estourados e vazamentos.
O vizinho não me ligou nem escreveu, o que me fez supor que a obra atrasaria ou que ele tivesse desistido da empreitada, dada as atuais circunstâncias do mundo, uma obra?, tantas guerras e crises ambientais, um martelete socando impunemente a cabeça de uma vizinha? que deselegante!, mas a obra começou na segunda, às nove, assim como o porteiro havia anunciado na ligação das labaredas de fogo e o batuque se estendeu para o restante da semana, mas nada se pode fazer diante de um morador que quer expandir seu território, sua casa, sua morada, dar novas cores ao seu reduto de amor, um banho mais quente aos filhos ou mesmo uma parede nova com quadros da família para celebrar a beleza que é procriar e viver e amar e, por isso, eu segui resiliente com meus afazeres, mesmo trabalhando de casa na maior parte do tempo, com fones de ouvido muito potentes, mas não mágicos, e as reuniões foram transportadas para os cafés da vizinhança, tudo em prol das melhorias ouvidas a tímpanos nus em qualquer quarteirão do bairro.
Estava em reunião quando a campainha tocou, estava na verdade fazendo gestos pela tela do computador esperando que o cliente, do outro lado, entendesse que aquela abordagem era ruim e por isso eu fazia não com o dedo indicador da mão esquerda enquanto com a direita apontava para um A4 em que estava escrito crise, mas ele dizia coisas que infelizmente não serei capaz de reproduzir por conta de um aparelho que talvez estivesse derrubando uma parede ou uma pia ou mesmo o prédio, me desculpei dizendo com as mãos espera e depois tempo, apoiando a palma de uma mão no dedo indicador da outra e saindo para abrir a porta, mas eu poderia ter ficado ali, poderia ter tentado puxar uma Macarena para quebrar o clima tenso da reunião ou mesmo desligado e colocado uma malha de ginástica para correr na avenida que fica na frente da minha casa, talvez na pista do ônibus, mas abri a porta e uma moça se dizendo arquiteta foi entrando com um moço se dizendo engenheiro e eu fiquei pensando será que é o Jogo da Vida? quero ser a médica que sempre ganha mais, mas eles já estavam no meio da sala se desculpando pelo barulho com as mãos e pedindo um pouco mais de paciência, porque a obra estava acabando, e para agilizar eles talvez precisassem fazer o encanamento pelo meu apartamento, mas aqui não precisa, eu disse, o encanamento aqui está ótimo, mas o que eles estavam tentando me dizer era que precisavam quebrar meu banheiro para fazer a obra no banheiro do vizinho, para levar uma água mais quente e um banho mais confortável para sua esposa e filhos e talvez pelo barulho ou por não ter escutado direito eu concordei e fui dizendo claro e eles felizes, e hoje entendo os motivos, só dois dias eles disseram, porque no primeiro a gente quebra e depois a gente pinta.
Você pinta como eu pinto?, eu tinha um tio que dizia isso em todas as festas, sempre que já estava todo mundo sentado, passando o salpicão de mão em mão, ele dava um jeito, criava uma oportunidade para perguntar isso para o sobrinho que estivesse mais perto, ainda que tivesse que abrir um reboco no teto da casa, só para dizer, ixi, vai ter que pintar, escuta, você pinta como eu pinto?, e ele ria, e alguns outros velhos riam também, e quando eu olho para os tetos dos meus três banheiros, para os rebocos caindo dos tetos dos meus três banheiros eu lembro do meu tio e penso que se ele estivesse aqui agora, enquanto eu tomo banho tapando a parte de cima do corpo para o João, encanador, que trabalha no andar de cima, não ver meus peitos ele diria uma coisa dessas e talvez eu até desse risada, porque já não tenho onde tomar banho e nem escovar os dentes, embora o tanque esteja preservado, foi o que disse o engenheiro o tanque está preservado, o que não se pode dizer da minha relação com a faxineira que já me avisou que só volta quando a obra acabar.
Tento me perdoar lembrando que interfones também tocam anunciando a chegada de brotinhos de brigadeiro, de bordas recheadas com quatro queijos, de flores e livros. Pensando que naquele dia, no dia da ligação das labaredas de fogo, aqueles três toques poderiam ser o aviso de que finalmente as minhas aquisições chinesas haviam aportado em Santos ou que alguém poderia estar me mandando um churros de doce de leite para melhorar minha tarde. Procuro pensar que não tinha como saber que era o prelúdio de um canteiro de obras, o fim da bonita amizade que nunca terei com o morador do 71, dos tetos de gessos que agora descansam sobre os pisos arranhados, do meu condicionador para cabelos ondulados que jaz sobre os blocos de cimento, de uma casa que se transformou em um banheiro de rodoviária por conta do esgoto que estourou e jorra pela lateral da parede, mas principalmente pelo interfone que tocou e eu atendi.
APAGAR PARA TODOS.

